sexta-feira, 29 de julho de 2011

Programa das festas 2011 em Algoso




Já é conhecido o programa das festas 2011, com actividades que vão de encontro a todos os gostos e a todas as idades, segue o programa:
12 de Agosto, Sexta-Feira
  • 22:00 Bingo na Casa do Povo
13 de Agosto, Sábado
  • 15:00 "Cagada" da Vitela
  • 22:00 Torneio de Sueca
14 de Agosto, Domingo
  • 17:00 Futebol: Solteiros VS Casados
  • 19:30 Procissão em honra de N. S. do Castelo
  • 22:00 Inicio da Festa da Caipirinha
  • 22:30 Arraial com o Grupo Musical TRIÂNGULO
  • 03:00 DJ Devil no Madrugas Bar até Alvorada
15 de Agosto, Segunda
  • 07:00 Alvorada
  • 08:00 Arruada com a Banda Filarmómica dos B.V. Vimioso
  • 09:30 Peditório
  • 13:00 Missa Solene em honra de N. S. do Castelo
  • 17:00 Concerto da Banda Filarmónica dos B.V. Vimioso
  • 22:00 Actuação do Cantor "LEONEL NUNES"
  • 01:00 Fogo de artifício
  • 01:30 Arraial com o Grupo Musical TV5
16 de Agosto, Terça
  • 07:00 Alvorada
  • 08:00 Arruada com a Banda Filarmómica dos B.V. Vimioso
  • 09:30 Peditório
  • 16:00 Missa Solene em honra de S. Roque
  • 18:00 Concerto da Banda Filarmónica
  • 22:00 Arraial com o Grupo Musical SINDIKATO
  • 00:30 Fogo de artifício


http://www.algoso.pt/noticias/noticias-de-algoso/148-festas-algoso-2011.html

Tradições: outras datas de festas, e tradições, em Algoso

Festas de ALGOSO


24 de Junho - Festas em Honra de: 
 São João


15 de Agosto - Festas em Honra:
Nossa Senhora do Castelo


16 de Agosto - Festas em Honra de:
São Roque


Tradições

Os casamentos - Tradição realizada na noite de Carnaval, e consiste na realização de casamentos fictícios entre os rapazes e as raparigas solteiras da Aldeia, em que depois de o casamento ser anunciado o rapaz ainda tem que disputar e ganhar um Leilão para poder casar com a Rapariga. Como recompensa no dia de Páscoa o noivo vai pedir um beijo ou um abraço à noiva.

Encomendar as Almas - Tradição de origem religiosa, em que um grupo de pessoas vai percorrer as ruas da Aldeia, após todas a gente se deitar, cantando em determinados locais da Aldeia.

O Ramo - Tradição realizada no Domingo antes do carnaval que consiste no Leilão de bolos de fabrico caseiro(ovos, farinha, açucar, sumo de laranja e aguardente), cozidos em forno de lenha, os quais são postos em ramos de oliveiras e leiloados. De seguida organiza-se a "corrida da rosca" que são provas de corrida por escalões etários(crianças, rapazes, raparigas, homens casados e mulheres casadas).


http://www.algoso.com/Festas.html

Tradições: As festas em Algoso




(...)Em Algoso, concelho de Vimioso, os mordomos tiram a esmola para a festa de Nossa Senhora do Castelo, celebrada a 15 de Agosto, acompanhados por uma banda de musica, e na cauda da procisão, no dia da festa, seguem muitas juntas de bois levando nos jugos sacos de centeio ou trigo em sinal de agradecimento à Senhora por lhes livrar as crias das moléstias ou fertilizar os campos. Este costume dos bovinos com cereal nas procissões usa-se em muitas terras bragançanas.

No dia seguinte, isto é, a 16 de Agosto, celebram a festa de São Roque, advogado da peste, como São Sebastião, indo também as crias na procissão. A esmola é obtida pelos mordomos acompanhados por uma dança de pauliteiros e gaiteiros, que se exibem diante das casas que deram a esmola. De tarde os mesmos pauliteiros organizam uma dança em frente à igreja matriz, mas os paulitos são substituidos por uma garrafa com vinho, um prato com arroz doce e um pernil de porco. A habilidade dos dançarinos consisten em utilizar estes mantimentos, que passam uns dos outros com rapidez, sem alterar a ordem da dança e, como nem sempre o conseguem, enlambiscando-se e manchando-se, o povo exulta, soltando estrepidosas gargalhadas.
Findo este número, executam varios laços e vão obtendo esmolas para o santo pondo o seu chapeu de dançantes na cabeça dos assistentes.


A Festa de Santo Estevão em Algoso, concelho de Vimioso, é celebrada a 26 de Dezembro, mas começa no dia 13 deste mês pela estúrdia do rapazio que munido de chocalhos percorre de noite a vila fazendo barulheira ensurdecedora com chocalhada e gritaria dando vivas ao Santo. Os mordomos desta festa são doze, designados por nomes extravagantes, como segue: Juiz, Bispo, Caudatário, Ajudante de Ordens, etc. Finda a festa religiosa, os mordomos cotizam-se, compram vinho e percorrem o povoado dando vivas ao Santo e vinho a quem quer beber, no meio de algazarra enorme e chocalhada da rapazio.
A circunstancia de estas festas começarem a 13 de Dezembro parece relacionar-se com um ciclo de festas francesas durante doze dias referido por Luís Chaves.(...)


ALVES, Francisco Manuel; AMADO, Adrião Martins. Vimioso. Notas monográficas. Coimbra: 1968.

Notas etnográficas: Superstições de Algoso


(...) De modo geral pode dizer-se que em terras do Vimioso o povo atribui a bruxedos, maus olhados, feitiçarias, moléstias prolongadas, prejuízos ou azares.
Neste casos é frequente ouvir-se dizer uma criatura a outra, como informa Luís de Meneses e Vasconcelos, de Algoso: «vai saber da vida», palavras que significam: vai imediatamente «procurar bruxa, benzedeira ou mulher de virtude» e ainda «mandar passar um escrito» a um padre.(...)


Local onde as bruxas se reuniam em Algoso

(...) As de Algoso juntavam-se no lameiro do Vale e na ponte de Valcerto. É possivel que no lameiro do Vale se reunam só as da vila e na ponte de Valcerto as de sete freguesias convizinhas.(...)


ALVES, Francisco Manuel; AMADO, Adrião Martins. Vimioso. Notas monográficas. Coimbra: 1968.

Tradições: A Páscoa em Algoso





(...) Em Algoso, no dia de Páscoa, os rapazes e raparigas organizam bailes nas eiras, marchando para lá em grupos e aos pares. A rapariga pega um lenço por uma ponta e o rapaz pela outra e levantam os braços formando arco; segue outro par que, passando debaixo do arco anterior, se coloca à sua frente, em arco por idêntico teor e assim todos os mais até que o primeiro frica no último e passa debaixo do seguinte e da mesma forma os outros, cantando sempre:



I
Ai que se embarca!
Ai que se embarca o meu coração!
Tu és a causa, tu és a causa,
Tu és a causa desta paixão.

II
Pega o Lenço, limpa o teu suor,
Cara delicada, meu lindo amor.

III
Joguei a tenda, está bem jogada,
Foi na batota, fiquei sem nada.


Também na ocasião da Páscoa costumam jogar o cântaro com uma vasilha de barro, formando para isso uma fila e arremessando o cântaro de diante para trás; porém, como aquele que o atira não pode ver o que lhe fica atrás, nem sempre calcula bem o golpe, o cântaro não é apanhado, cai ao chão, quebra-se, e o inábil que o deixou cair tem de apresentar outro, no meio de grande algazarra dos mirones. (...)


ALVES, Francisco Manuel; AMADO, Adrião Martins. Vimioso. Notas monográficas. Coimbra: 1968.

Tradições: os casamentos em Algoso




(...) Em Algoso o noivo oferece à nubente o vestido e paga as despesas do casamento; em câmbio ela oferece-lhe a camisa e faz as despesas do jantar no dia da boda.
   A noiva veste de preto, mas lenço branco ou claro, e o noivo leva sempre capa. À saída da igreja as raparigas formam dois arcos distanciados um do outro, com lenços de seda, fitas, flores e cordões de ouro pendentes e não deixam passar ninguém sem dar algum dinheiro para enfeites de Nossa Senhora. A estes arcos chamam talanqueiras e o padrinho e a madrinha do casamento (testemunhas) é que desempenham (pagam a esmola) e junto a eles são recitadas as loas. Os convidados do jantar oferecem presentes aos nubentes. Aos assistentes que os foram acompanhar até à porta de casa dão pão e vinho, distribuindo ao mesmo tempo amêndoas por eles ou lançando-as ao ar com grande reboliço da rapaziada que as apanha. Depois do jantar segue a'strunfa (saída e divertimentos). No dia seguinte os nubentes vão levar às pessoas amigas, que não puderam assistir ao casamento, as amendoas e, se algum dos nubentes é de outra povoação, vem sua familia e amigos à chamada torna-boda, sendo frequente irem esperá-los num carro de bois enfeitado em arco e puxado por rapazes solteiros.

Este costume do carro também é aplicado quando vem pároco de novo para a freguesia. Estas praxes casamenteiras são, com pequena diferença, gerais pelo distrito de Bragança; todavia agradecemos ao Sr. Luís de Meneses e Vasconcelos as informações que remeteu ao amigo Francisco Anacleto Pereira e este a nós.

Muitos destes costumes já vêm dos romanos, como mostramos nos lugares abaixo citados.

Assim as loas recordam o Epithalamium; as amendoas, o mestaceum; as talanqueiras, a coempcio do paganismo.

Também é crença em Algoso e noutras terras do concelho do Vimioso que na noite de núpcias o conjugue que apagar a candeia é o primeiro a morrer. (...)



ALVES, Francisco Manuel; AMADO, Adrião Martins. Vimioso. Notas monográficas. Coimbra: 1968.

Tradições: os baptizados em Algoso



(...) Em Algoso, concelho de Vimioso, no dia do baptizado o neófito é conduzido à igreja pela mulher que o amamentou após o seu nascimento, que nunca são as mães, pois é crença geral que o primeiro leite é prejudicial aos recém-nascidos.(...)


ALVES, Francisco Manuel; AMADO, Adrião Martins. Vimioso. Notas monográficas. Coimbra: 1968.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Ciência Viva No Verão

 

É já na próxima Sexta-feira que se irá realizar a actividade da Ciência Viva, no castelo de Algoso. Vem conhecer melhor a geografia da localização dos castelos, os princípios físicos da sua arquitectura, a pedra usada na sua construção e as batalhas que lá se travaram. A entrada é gratuita mediante a prévia inscrição.

sábado, 16 de julho de 2011

Ciência nos Castelos 2011

Título: Castelo de Algoso
(Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos)
Data: 29 de Julho às 17:00   Inscrição Obrigatória (50 vagas)
Descrição: O Castelo de Algoso ergue-se em posição dominante no cabeço da Penenciada, domina a planície envolvente e a confluência da r. da Angueira com o r. Maçãs. Tem uma das mais impressionantes envolventes geográficas, com uma das vertentes a descer em directo para o rio. A Geografia domina este castelo. A ciência do ataque e sobretudo da defesa. A exploração dos recursos envolventes.
Ponto de encontro: Na porta de entrada do Castelo de Algoso.
Como Chegar: Pela EN 219, a 12 km a sul da localidade de Vimioso, entrando-se na povoação de Algoso e, depois de a atravessar, seguindo pela estrada que sai do Lg. do Pelourinho no sentido nordeste ao longo de 300 m até ao cimo do monte
Coordenadas GPS: 41.46794283615212 N, -6.575660705566406 O
Ver no mapa
Localidade: Algoso / VIMIOSO / BRAGANÇA
Itinerário: Percurso no interior do Castelo de Algoso
Número de participantes: 50
Duração: 1,5 h
Transporte:
Notas: Recomenda-se calçado confortável e vestuário prático. Aconselha-se água.

Novo serviço de visitas guiadas

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Dia de Monumentos e Sítios - 18 de Abril - Algoso



   No próximo dia 18 será realizada, na aldeia de Algoso, em Vimioso, um percurso pedestre por vários monumentos da mesma aldeia. Será visitado o seu Castelo, a ponte de Algoso e, finalizando o percurso, os participantes poderão descansar, assim como o fizeram milhares de peregrinos a caminho de Santiago, na Fonte de Mergulho da capela de S. João. Pelo meio poderão observar uma paisagem única que nesta época primaveril se receste de cor. Após aa visita ao último monumento será servido um pequeno lanche aos participantes que realizaram a inscrição. 


SONS&RURALIDADES 2011 - Vimioso



Festival de Ecologia, Artes e Tradições Populares

sábado, 9 de abril de 2011

Caminho de Santiago por Algoso






Algoso era ponto de passagem obrigatório para os romeiros que percorriam o Caminho de Santiago.
Rica em estórias e património, Algoso é, também, conhecida pela Fonte Santa, na Capela de São João. Seria aí que, em tempos idos, os romeiros que percorriam o Caminho de Santiago lavavam os pés e descansavam antes de continuarem viagem.

http://algoso.bragancanet.pt/content/view/57/1/lang,pt/


Explore o "outro" Caminho Português de Santiago, que se desenrola na zona nordeste do país, passando por várias Aldeias Históricas e também pelo fascinante Parque Natural do Douro Internacional. Propomos-lhe uma semana de caminhada que combina paisagens deslumbrantes com toda a carga cultural deste caminho de peregrinação. Entre as muitas pitorescas aldeias que visitará,
Algoso e o seu imponente castelo merecem um destaque especial. Em Algoso poderá lavar os seus pés numa fonte usada há séculos pelos peregrinos que se dirigem a Santiago de Compostela.

http://www.apecate.pt/pt/feed/actividades_dos_associados/3331-Actividades-A2Z-ADVENTURES-Outubro-2010.txt


De Castelo Rodrigo para Norte, o caminho avançava em duas vias convergentes, por Almendra, Castelo Melhor, Vila Nova de Foz Côa, Pocinho, Torre de Moncorco (Adeganha e Urros) Carvalhal e Carviçais, ou então, por Escalhao, Barca de Alva , Freixo de Espada a Cinta, rumando então, pela mesma via, para Mogadouro, derivando depois por Algoso ou por Santiago, Urros e Miranda do Douro, até nova unificação em Vimioso, seguindo depois para Bragança, Vinhais e Chaves.

http://valecoadouro.lac.pt/index.php?action=rub_aff&rub_id=54&page_id=172

Ordenanças de Algoso










Tipo: Capitania-mor


Governo Militar: Trás-os-Montes

Comarca: Miranda

N.º de Companhias: 4

Pertença: Coroa

Terra: Concelho





Capitães: João António Rodrigues, capitão-mor



Outros oficiais :
  • Francisco Pires Padrão, sargento-mor
  • Manuel Bernardo, ajudante [1831]

    Dados estatísticos

    Data Fogos Habitantes Recrutas
    1798 885

    35
    1801

    3.339

    2001

    2.099


    Designação

    Capitania Mor de Algoso

    Histórico

    Concelho formado em 1801 por dezanove freguesias. Onze freguesias foram integradas noutras, dando origem a oito freguesias. Extinto durante as reformas do início do Liberalismo, as actuais freguesias pertencem aos Concelhos de Miranda do Douro (2), Mogadouro (3) e Vimioso (3)

    Fontes



    Almanaque das Ordenanças referido ao 1.º de Março de 1831..., Lisboa, Na Impressão de Manoel Joseph da Cruz, 1831;
    A População de Portugal em 1798. O Censo de Pina Manique, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1970
    Nuno Gonçalo Pereira Borrego, As Ordenanças e as Milícias em Portugal, Subsídios para o seu Estudo, vol. I, Lisboa, Guarda-Mor, 2006
    Atlas. Cartografia histórica, integrado no Memo. Caminhos da Memória - Informação Histórica
    Wikipedia. A Enciclopédia livre

Mouras e Tesouros Encantados em Algoso









Num sítio chamado Fornos, em Algoso, há uma fonte onde vivia uma moura encantada que, certo dia, apareceu a uma boieira prometendo-lhe imensas riquezas, se a desencantasse. Para tal, bastava que não se assustasse quando ela lhe aparecesse à hora aprazada em figura de touro bravo, em jeito de querer escorná-la, ou de serpente a trepar por ela acima para a beijar.A rapariga prometeu mas, quando da investida da serpente, fugiu. A moura desapareceu, lastimando-se: -“Ai que me dobraste o encanto!”
É sempre assim, as mouras lá estão, e os tesouros também, mas ninguém se atreve a desencantá-los. Os que o prometem e falham, dobram o encanto às solitárias mouras encantadas.
Também noutra fonte do sítio da Terronha, há outro encanto sob a forma de cordão de ouro. Já uma vez foi visto por uma mulher que começou a dobar, a dobar nele e, quando já não podia mais, entendendo que já tinha riqueza suficiente para si, filhos,  netos e bisnetos, cortou o cordão. Imediatamente, tudo desapareceu e a mulher ficou sem nada.
 

Heráldica de Algoso



Brasão:Escudo de verde. Castelo de ouro, lavrado, aberto e iluminado de vermelho, entre dois ramos de amendoeira de prata, floridos de ouro; em chefe, cruz da Ordem de Malta: em ponta, fonte heráldica. Coroa mural de prata de quatro torres. Listel branco, com a legenda a negro: «ALGOSO».

Castelo de ouro: Representa o castelo de Algoso que tinha como principal objectivo vigiar a fronteira com Leão. 

Cruz da Ordem de Malta: Representa o facto de Algoso ter sido uma comenda da ordem de Malta ou do Hospital, e como cabeça da "Terra" ou distrito medieval de Miranda, ter pertencido a vila e o seu castelo à Ordem do Hospital. 

Dois ramos de amendoeira de prata: Representa a beleza natural da freguesia, assim como a agricultura, actividade base da economia local e na qual se destacam entre outras, a produção de amêndoa. 

Fonte heráldica: Representa os rios Maçãs e Angueira, assim como as fontes da freguesia, entre as quais se detacam as fontes romanas. 

Coroa mural de prata de quatro torres: Representa o titulo de Vila por via dos forais de 1480 de D. Afonso V e de 1510 de D.Manuel I.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

sábado, 2 de abril de 2011

Tomada de posse do Bailio, Chanceler e comendador de Algoso

Para se avaliar o poder que os freires da Ordem e Milícia da Sagrada
Religião de S. João Baptista do Hospital de Jerusalém, vulgo de Malta, tinham
na comenda da vila de Algoso bastaria atentarmos no quadro descrito no auto
de posse, datado de Outubro de 1681, em que o reverendo Manuel de Araújo
de Afonseca representou, na qualidade de seu feitor e procurador bastante,
Frei António Correia e Sousa, Balio, Chanceler e comendador de Algoso. Com
efeito, antes de se dirigir à igreja de S. Sebastião, orago da matriz, passou pelo
castelo desta vila onde decorreu um cerimonial de claro significado para os
contemporâneos :


«ahi tomou o dito procurador posse delle fichando e abrindo as portas
do dito castello cujas chaves ficarão na sua mam e loguo fomos a igreja
matriz desta villa cuja capella mor lhe pertence e nella tomou taobem
posse abrindo o miçal e tomando as gualhetas e tomando outrossim
posse de todos os ornamentos que ao dito fidalgo pertencem e assim se
lhes deu posse de tudo o mais que ao dito comendador pertence como
são tulhas e rendas».



A posse da matriz, significando igualmente a posse sobre as igrejas que
lhe eram «aneixas e filiais», tinha uma consequência directa: todos os
sacerdotes que nelas exerciam o múnus pastoral deviam ser apresentados pelo
comendador. Mas a estas havia ainda que acrescentar as abadias da Senhora
da Assunção de Travanca, de S. Pedro de Sendim, S. Pedro de Silva, Santa
Olaia de Cércio que «em solidum erão do padraoado desta villa de Algozo e
apresentação dos comendadores delia do tempo emmemoriavel sem contradição de pessoa algua
».

Para todas as igrejas da comenda se passaram a escrito os encargos do
comendador e dos seus fregueses. Ainda que neste campo se possam assinalar
algumas variações, merece a pena evidenciarmos as obrigações de maior
significado que, em 1684, o comendador tinha para com a igreja de S.
Sebastião de Algoso e em que:


«por custume antiguo ememoriaes estava o venerando comendador
obriguado todo o necessário para ademnistração dos sacramentos
sacrário e ornatos retaballo da cappella maior comcerto da samchristia
de hua parede e todo o tecto doze arratez de sera hua lampa [sic] com
sua luz aseza continuadamente na cappella maior corenta mil reis ao
reverendo reitor seis ao reverendo cura quoatro alqueires de triguo e
dois almudes de vinho para as missas».



Como as obrigações pressupõem direitos, anotem-se as rendas que ao
comendador competia receber:


«as três partes dos dismos desta villa e sua reitoria de todos os frutos e
criaçoens e as imprimas todas em solidum e que os quoartos dos
dismos pertencia ao Ilustríssimo bispo de Miranda ».



Sendo útil referir que em relação directa com a reitoria e com a
comenda da vila de Algoso se podiam contar dezoito igrejas de outras tantas
povoações valerá igualmente a pena acrescentar que a religião de Malta era
titular de muitos direitos e propriedades em quase todas as povoações do
bispado de Miranda. Uns e outras foram objecto de registo, medição e
demarcação no século XVII e novamente em 1707 uma vez que, de acordo
com os Estatutos da Religião de Malta, o comendador - nesta altura Frei Heitor
Pinto de Miranda - tinha obrigação de fazer Tombo com uma periodicidade
de vinte cinco anos para, desta forma, se evitarem usurpações e se trazerem
com boa organização os bens da Ordem.



Rodrigues, Luís Alexandre, 2001, "De Miranda a Bragança: arquitectura religiosa de função paroquial na época moderna", Volume I, Dissertação de Doutoramento em História de Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Rota da Ordem Soberana e Militar Hospitalária de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta



 Uma ligação a visitar: http://www.storyboard.pt/malta1/

Teatro em Algoso

Percorrendo Trás‐os Montes, em 1962, em busca de moinhos que lhe espicaçassem o imaginário para se abalançar a uma película sobre o pão, em
que de há muito vinha cogitando, cerca da Curalha, fixou‐se o cineasta cristão
Manoel de Oliveira em três cruzes de rústica madeira, simetricamente coloca-
das à beira de uma estrada. Inquirindo a sua razão de ser, foi informado de que,
naquela aldeia, iria, uma vez mais, ter lugar uma representação popular do Auto
da Paixão, de Francisco Vaz de Guimarães, discreto dramaturgo português de
quinhentos, e de que os intérpretes seriam os próprios habitantes da região.1

1. Tais representações têm‐se sucedido ainda nos séculos XX e XXI, só me tendo sido possível recolher uma informação muito lacunar. Em Teatro Popular Mirandês (Instituto de Desenvolvimento Social, Lisboa, 2002), Valdemar da Assunção GONÇALVES, citando diversas fontes, dá‐nos conta de espectáculos em Ifanes (1903), em Caçarelhos (1939), em Algoso (Vimioso), em Genísio e em Duas Igrejas (1948), declarando possuir cópia de texto de 1956 recolhida em Caçarelhos. Em Teatro Popular Português. Trás‐os‐Montes. I Religioso (Braga, Pax, 1968) Azinhal ABELHO referira representações em Moimenta, Duas Igrejas, Curalha e Bustelo, localidade onde assistiu à função do casco cujo texto recolheu. Uma simples pesquisa na Internet põe‐nos ao corrente de repetições em 2005 (Bustelo) e 2006 (Fatela, Santo António de Monforte e Sonim‐Valpaços)

A Oração No Horto: um Auto quinhentista e suas recuperações, Via Spiritus 14 (2007) 91-108

quinta-feira, 31 de março de 2011

Conto feito por uma criança

Duas horas... duas horas e meia... quase três horas...
A viagem, felizmente, estava quase no fim. A auto-estrada projectava-se no horizonte, como uma serpente sinuosa de alcatrão negro, contornando montes, rasgando os bosques, transpondo rios revoltos com o degelo da primavera. Março aproximava-se do fim e a primavera conquistava o seu espaço, invadindo de verde vivo os mais ínfimos recantos, brotando de entre as rochas, salpicando de flores silvestres as beiras das estradas. Nos céus, as aves regressavam aos lares, embaladas pelas brisas mornas do sul.
Aos poucos e poucos, a neve fora desaparecendo e a vida adormecida voltava agora a brotar, com todo o seu esplendor, aos primeiros raios de sol.
Bragança, Macedo de Cavaleiros, Algoso… Castelo de Algoso. Um pequeno ponto no mapa, meia dúzia de casas em ruínas nas encostas de um castelo que já fora outrora imponente, mas que agora se entregara ao silêncio do abandono.
Chegara ao seu destino.
A estrada esboroada e cheia de curvas desencorajava os turistas. Os próprios habitantes evitavam percorre-la, apesar de ser a sua única forma de comunicar com o mundo exterior. Talvez por isso mesmo tivessem partido, um após outro, rumo à vila de Algoso, levando os filhos, os animais, o recheio das casa… transformando a aldeia num castelo assombrado de almas penadas, entregue aos cães vadios que percorriam as ruas vazias à procura de alimento.
Todos os habitantes haviam partido… todos, menos um.
O automóvel deteve-se diante da única casa ainda impecavelmente caiada de branco, com um rodapé azul forte a contrastar com o cinzento das pedras da calçada. Uma buganvília, já de tronco retorcido, estendera-se livremente sobre o muro, deixando pender uma mancha arroxeada viva sobre a rua, um tufo de cor no meio da desolação.
O último resistente de Castelo de Algoso insistia em cuidar do jardim, podar a sebe, pintar as portas e janelas e ainda manter saudáveis e bem tratados os coelhos, galinhas e as duas gaiolas de periquitos com que preenchia grande parte do seu tempo livre.
- Avô…
- Ricardito… pensei que te ias esquecer…
Abraçaram-se efusivamente.
O avô Gilberto era uma daquelas personagens de um mundo antigo, rural e em vias de extinção. Os dois filhos, noras, netos… todos residiam no Porto ou em Braga, entregues aos seus afazeres, disfrutando o conforto da civilização.
Mas ele ficara.
Vizinho após vizinho, acabara sozinho na pequena aldeia.
O Ricardito - como ele nunca deixaria de lhe chamar - era o mais novo de todos os netos; mas também aquele com que sempre mantivera a mais especial relação de afecto, de cumplicidade até. O Ricardito era a sua visita mais assídua, o único que - ainda criança - ali passara com ele algumas férias de verão, a brincar com os animais, a ajudá-lo na horta, empoleirado sobre o tractor.
E mesmo agora, vinte anos já feitos, continuava a cumprir aquele ritual mágico do último fim de semana de Março - O Hamami.
O que era o Hamami ?
O avô Gilberto explicara-lhe - andava ele ainda de calções - a essência da contemplação das amendoeiras em flor, uma tradição ancestral no Japão, onde todos os anos uma multidão de famílias rumava aos parques e campos, para se deleitar com o momento mágico do desabrochar da flor da amendoeira.
Sentaram-se no quintal traseiro da casa, uma toalha branca sobre a mesa, uma garrafa já aberta, pão, algumas guloseimas que o neto trouxera da cidade, à sombra da grande árvore.
Durante aquele fim de semana, ficariam por ali, tranquilamente à espera do momento mágico.
- Ainda te lembras? - e o avô observava-o com carinho.
Claro que se lembrava. Fora ele mesmo, com a ajuda do avô, que plantara aquela mesma árvore, num dia longínquo de uma daquelas férias de verão que ali passara. De alguma forma… sentia aquela árvore como um passar de testemunho, uma forma de perpetuar sentimentos, de partilhar afectos…
- Claro que me lembro, avô… então ia lá esquecer-me disso ?
Reclinou-se um pouco mais e olhou para um dos pequenos ramos, que pendia próximo da mesa.
- Queres fazer uma aposta comigo, avô ? Vai ser ser aquela ali… a primeira a abrir…
O avô seguiu-lhe o olhar e sorriu.
- Nem penses Ricardito… julgas que acertas todos os anos, é isso ? Nem penses… ora deixa-me lá ver qual vou eu escolher…

Turistas que visitam Trás-os-Montes são os mais satisfeitos do Norte



Os turistas estrangeiros que visitam a região transmontana são os mais satisfeitos de todo o Norte do país. Um inquérito feito pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDRN) revela que 49,9% dos turistas que visitaram Trás-os-Montes manifestaram-se “muito satisfeitos”.
 
 
De seguida, está a região do Porto com 41,9%, o Douro com 31,7% e o Minho com 23,5%. O documento revela ainda que Trás-os-Montes lidera o top das preferências com 56,5% dos turistas a garantir que “muito provavelmente” recomendariam a região a amigos e familiares. O Porto aparece em segundo lugar com 50,7%, o Minho em terceiro com 44,1% e por fim o Douro com 30,7%. Pela primeira vez, o nordeste transmontano lidera também as preferências dos turistas para uma segunda visita.
No questionário, 60,3% dos turistas dizem que “muito provavelmente” vão voltar a visitar a zona.
 

O mesmo acontece com 59,9% dos turistas que passaram pelo Minho, 43,5% dos que foram ao Porto e 27,8% dos que estiveram no Douro.
O vice-presidente da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal, Júlio Meirinhos mostra-se satisfeito com estes resultados e destaca as potencialidades da região: “Temos uma data de produtos estratégicos, como a Natureza, gastronomia e vinhos e a animação cultural que são determinantes para esta preferência”. Além disso, destaca também “a simpatia dos transmontanos”, que tem feito com que os turistas fiquem agradados e queiram voltar. “Mais de 56 por cento querem repetir, o que é inédito porque o turista, por norma, procura novos destinos”, destaca Júlio Meirinhos. E para melhorar este desempenho o responsável adianta que até ao final do ano, todos os concelhos do distrito de Bragança vão estar equipados com lojas interactivas de informação ao turista “para que nada lhes escape”. A primeira destas lojas deverá ser colocada no Aeroporto Sá Carneiro, no Porto.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A Moura do Algoso

A Moura do Algoso


Terras trasmontanas, onde o chão, para melhor subir nas alturas do ceo, se ondeia, revolve, enovella em montes, até dar o salto mortal para as serranias enormes: ahi fica a villa do Algoso.
Está em terras de Vimioso, que a voz do povo reune a Miranda-do-Douro, cantando e rindo de troça:

Caçarelhas já foi villa,
Miranda nobre cidade,
Vimioso ladroeira,
Como toda a gente sabe.

Era o Algoso velha alcaidaria-mór da comarca de Miranda, enterrada entre as Serras de Bornes e Nogueira a todo o Poente, e as Serras de Roboredo e Cimas-de-Mogadouro para Sul e Nascente. Vê-se como será movediço este chão, que liga as duas imponentes linhas de alturas rochosas e agrestes. Correm entre estes macissos dois rios, o Mação que vae desaguar no Sabor, e o Angueira que abaixo do Algoso se mette no Mação.
Lá para cima é Bragança, no seu throno lendario que domina todo o districto; ao Nascente é a antiga cidade de Miranda, honesta e humilde na sua decrepitude sympathica de mumia. E’ rude o povo quando lhe diz: — Se fôres a Miranda, vê a Sé e anda.

*

Sobem montes, descem precipicios, sobem outros montes mais altos, e nas covas, sobranceiro ás alturas, esteve outrora o castello do Algoso. Para descer e ir a terras vizinhas, é longe. Tudo é longe, mau andar naquellas serras frias.

Quem quiser vêr mau caminho,
Vá de Soutello a Montezinho.

Quem quiser saber o que as legoas são,
Vá de Iseda a Santulhão.

Lá no fundo fervem, no cachão branco da espuma, as aguas geladas do Angueira, no qual vão banhar as raizes os pinhaes, que descem lentamente, cobrindo-os por completo, os montes vizinhos.

*

Havia no Algoso uma fonte ao pé de um rosal. Era simples. Uma fontezinha aldeã: da pedra do monte brotava e corria, cantante, a agua; do sulco, por onde ella descia como varinha de crystal a torcer-se, cahia num tanque pequeno de pedra, cavado rudemente por qualquer artifice da aldeia; aos lados, moutas de roseiras aromatizavam deliciosamente o recanto.
Chamavam-lhe a Fonte de S. João, porque nessa noite, uma vez ao anno, apparecia, onde vinha pentear-se, a mais linda moura de Tras-os-Montes.

*

Diz a lenda que por alli havia, no tempo dos Mouros, um bruxo de terrivel memoria.
Acudiam todos a procurá-lo, para serem curados por elle nas doenças de que desesperavam melhoras, ou para o consultarem em assumptos de interesse. Curava doenças a uns; matava outros com os remedios; enganava os que lhe pagavam os serviços, convencidos dos poderes de bruxo. Mas o certo é que tinha fama por todos os arredores.
Desciam os povos em demanda do bruxo poderoso, desde Macedo-de-Cavalleiros, Vimioso, Mogadoro e Alfandega-da-Fé, através das montanhas cheias de neve. Quantos morriam pelo caminho minados pela doença e pelas canseiras da viagem? Outros cahiamnos precipicios. Havia luctas tremendas com alcateias de lobos. E no emtanto, apesar de tudo, afluia do Freixo-de-Espada-á-Cinta, da Torre-de-Moncorvo, de Villa-Flor, de Mirandella, de Bragança. De mais longe, de Vinhaes, Valle-Passos, Murça, Carrazeda, e mais e mais.
Era uma romaria no Algoso. E o bruxo orgulhava-se da clientella. Procuravam-no pobres e ricos; e na casa de pedra negra, onde os recebia, entravam os estofos luxuosos e os pannos grosseiros. A todos elle egualava deante das suas artes magicas, porque a egualdade adoptada por elle era a do dinheiro. Todos que pagavam, seriam servidos.
Creou fama de rico e devéras o deve ter sido. O ouro corria a jorros para os arcazes de embutido.

*

Os Christãos, fortes já na sua audacia pelo numero e sobre tudo pela fé, desceram das montanhas do Norte da Peninsula e vieram de roldão por ahi abaixo contra os Mouros. O Algoso resistiu mas teve de render-se, e o bruxo desappareceu.
Quando viu tudo perdido, o bruxo não quis que os seus thesouros cahissem nas mãos dos vencedores. Tratou de os esconder. Para mais, elle não podia convencer-se do grande praso de ausencia os Mouros voltariam mais dia menos dia, e elle de novo se apossava das riquezas escondidas.
Só lhe faltava escolher o logar do esconderijo, e a unica difficuldade, se a havia, era escolher um entre tantos; mais custoso seria o trabalho de encontrar guarda para elle.
Correndo os olhos pelo contorno do castello, deu com a Fonte de S. João. Era bom sitio para se não perder, e não ficava longe. Foi-se lá com o melhor dos thesouros, que não podia transportar consigo na fuga pelos montes e precipicios. Cavou e metteu na cova o cofre de marfim, chapeado de cobre, onde guardou as joias e o ouro.
Ao voltar para casa, deu com uma rapariga, que ia á fonte, com uma cantarinha de asa esbelta. Receou que ella o tivesse visto guardar o cofre no rosal á beira da fonte, e o denunciasse. Só tinha um remedio salvador; era encantá-la. Além de se assegurar assim contra a possivel e temida denuncia, obteria de esta forma a guarda do thesouro, guarda fiel, que nada diria e a ninguem se denunciaria.
Estas duas circunstancias resolveram-no. Caminhou para a rapariga, e dizendo certa oração mysteriosa, de elle bem conhecida, fez-lhe sobre a cabeça alguns signaes cabalisticos. A rapariga desappareceu como se tivesse entrado pelo chão, e a cantarinha de barro, cahindo no solo, desfez-se em mil pedaços. Deu o bruxo uma gargalhada infernal e foi-se ao castello.
Quando os Christãos entraram no Algoso, não havia noticias do bruxo. Com a ingratidão do costume, e com o odio dos beneficiados aos autores dos beneficios, corno é dos livros e de todos os tempos, os povos das vizinhanças, que primeiro se serviram do bruxo e a elle iam pedir auxilio por caminhos difficilimos e perigosos, cahiram em massa no Algoso, para lhe assaltarem a casa e roubarem os thesouros. Já o não receavam, nem de nada lhes servia. Mas não encontram mais que a casa de pedra negra e o porco mobiliario bem conhecido de elles, afinal.

*

Que encanto déra o bruxo á rapariga do Algoso? preguntar-se-ha.
Quando lhe pôs as mãos na cabeça e lhe traçou sobre ella os signaes cabalisticos, a rapariga transformou-se immediatamente em uma grande cobra. Correu por entre o matto, em que se embrenhou, e foi para o rosal: ahi ficaria até volta do bruxo, a guardar os thesouros.
A’ volta da fonte, erguiam-se copados ulmeiros que formavam ao rosal a mais bella sombra. Por ahi vivia na sua miseria a pobre menina feita cobra. Só uma vez por anno retornava as formas humanas. Dizia-se que era linda como os amores. Alguem a tinha visto de longe, na noite de S. João vestida de branco, na sombra dos ulmeiros, como nuvemzita de neve a subir na madrugada, serenamente.

II

Andava accesa na villa a fama da moura da Fonte de S. João. Approximava-se a festa do Santo e estavam lindas de côr e fragrancia as rosas do tanque.
Um rapaz apaixonou-se pelo mysterio da pobrezita, enclausurada na sombra um anno inteiro. A noticia da sua belleza, dos vestidos brancos, e dizia que cantava como os Anjos nessa madrugada festiva, encheram-no de ansiedade.
— Hei-de vêr a moura da Fonte, — disse elle um dia, resolvendo tentar vê-la e fallar-lhe.
— Ela foge, assim que vê alguem, — informou a velha mais velha do Algoso, ao saber da decisão do rapaz.

*

Vespera de S. João. Luz no céo, fogueiras na terra. Por felicidade a noite era clara. Cantava-se na villa. Os foliões saltavam aos ranchos nas praças e quintaes, através das labaredas crepitantes das fogueiras em honra do Santo festejado.
O rapaz, quando anoiteceu, dirigiu se á Fonte. Atrás de si as cantigas faziam-lhe inveja, quereria voltar á villa, mas a vontade era maior na direcção de conseguir vêr a moura e fallar-lhe.
— Aqui não consigo nada, — pensou elle para si, ao chegar ao tanque; — a moura, mal se visse, desapparecia, e eu ficava a vêr navios.
Procurou um logar, fronteiro ao tanque, de onde podesse ver, sem logo ser visto. Estava a dez metros, debaixo de um olmo grande que o encobria do lado da fonte. Sentou-se no chão, encostado á arvore, e aguardou. Na villa os ranchos cantavam alegres, e os cantos de todos elles reuniam-se em um canto só, enorme, confuso, como cantochão num pinhal.

*

O ar ia refrescando. A atmosphera adelgaçava se, crescia, abobadava-se em luz. Pousava na terra um véo de claridades suaves. Na sineta do campanario repenicava a hora do banho santo. Pareciam vêr-se no ar as ondulações das badaladas.
De ouvido apurado, o rapaz não perdia de vista a fonte. Era á meia-noite que a moura devia de apparecer. Por isso, ao ouvir a sineta da villa, commoveu-se da sensação extraordinaria e desconhecida, que lhe embalava no vacuo os pensamentos e o corpo.
De repente ouve um restolhar no rosal. Grande cobra, uma serpente assustadora, desembocou do mattagal e, subindo ao bordo do tanque, atirou-se á agua. Chapinhou dentro da agua aquelle corpo negro e asqueroso. Três vezes mergulhou com ruido na agua. E os olhos esgazeados do rapaz viram cheios de espanto que a serpente se transformava em mulher.
— A moura! — e a vai ficou-lhe collada á garganta.
A moura sahia lentamente da agua, espannejando-se com alegria infantil de creança, que sahe do banho. Quando estava inteiramente de pé, elle viu-a vestida de urna tunica branca. Firmava os olhos, para se convencer bem de que era a moura, que via alli de pé, deante de si, pois mais lhe parecia pedaço de nevoeiro a fugir das aguas do tanque para as copas amigas dos ulmeiros.
A folhagem cerrada do arvoredo cobria com docel de penumbra a brancura alvejante da moura. As rosas ao lado, no rosal, não eram mais brancas naquella claridade baça.
O rapaz seguia-a attentamente com os olhos. Viu-a depôr na beira do tanque as escamas metallicas da pelle de cobra. Depois a moura saltou para o chão, estouvada e em azougue como collegial em ferias; os cabelos de ouro, que brilhavam em tranças grossas, cahiam-lhe pelas costas ou pousavam no hombro as madeixas macissas. Sentou-se na beira do tanque e espalhava os cabellos. Foi como se uma chuva de estrellas cahisse nella! Os hombros, o peito, a cabeça gentil, resplandeciam. Aquelle recanto sombreado transformava-se em um tabernaculo. Corria o pente de ouro nos cabellos de filigrana, lavrava-os com os dentes macios, cardava o linho de ouro para o precioso tecido com que enfeitava a cabecita.
Ia fallar-lhe o rapaz. Mas a moura principiou a cantar. A voz prendeu-o ao chão, e elle calou-se.
Deante da menina saltitou uma corça branca. Beijava-lhe os pés, corria de um canto a outro voltava a afagar-lhe os pés, calçados em babuchas de damasco azul, com bordados que brilhavam. Se alguma folha cahia, ou algum estalido mais rijo cortava o silencio circundante, logo a corça firmava as patitas elegantes e perscrutava os arredores com olhos vivos e orelhas arrebitadas.
Continuava a moura a pentear-se e a cantar. A sua voz, leve como haste de açucena, erguia-se na limpidez crystallina da madrugada; tinha doçuras e convites de campanario longínquo pelas quebradas. De vez em quando afagava com a mão meudinha a corça que lhe lambia as babuchas de damasco, pendentes da ponta dos pés.
A agua, correndo da pedra da nascente para o tanque, era a unica harmonia que acentuava o canto delicioso.

*

Ao longe ouvia-se ainda na villa o côro do banho santo. E a pouco e pouco iam adormecendo os echos. Até que, por fim, nada mais dava signal de vida, fóra do pequeno terreno onde esta scena se passava.

*

Quando acabou de se pentear, o que fez com todo o descanso de quem não tem pressa, duas tranças cahiam-lhe sobre os hombros. Emmolduravam-lhe o rosto, como essas columnazinhas que formam os nichos da Virgem. Deus nos perdoe a lembrança, mas aquella menina, moura sim, era martyr virginal, que a maldade do bruxo para alli tinha encantada sem culpa. Depois de se pôr de pé, inclinou-se para o tanque, onde a agua formava o unico espelho de que ella dispunha. Debruçou-se nas aguas. Decerto viu reflectir-se toda a belleza, que em breves momentos voltaria a esconder-se nas escamas metallicas da pelle de serpente hedionda, que a esperava. Chorou. As lagrimas corriam em fio, e soluçava. O corpo gentil agitava-se em convulsões.
Ergueu-se. Levantou as mãos como numa prece ao céo. O perfil esguiava-se naquelle vestido branco; torcia os braços nús, brancos como nevoa, e, que como nevoa pareciam subir e contorcer-se no ar.

*

Condoído, o rapaz quis então fallar-lhe e consolá-la, para o que julgou asado o momento. Não se lembrou do seu interesse. E’ verdade que elle estava ali movido mais pela curiosidade ansiosa de vêr a moura, aquella moura ali na sua frente, do que pela ideia de tirar partido interesseiro do encontro.
Diz-se que, se alguem visse a moura, nas horas para dia felizes, em que tinha forma humana, de ella conseguiria três coisas que lhe pedisse.
Não se lembrou de tal o rapaz. Penalizado pela mágoa da moura, que chorava e se lamentava, teve tentações de lhe fallar e consolar-lhe as afflicções com palavras amigas e de sympathia.
Lá estava dia de pé, á beira do tanque; as mãos, descendo do alto, vieram limpar-lhe os olhos, onde as lagrimas brilhavam como diamantes accesos. E’ o cabello de ouro coroava, aquella figura branca de açucena, com um véo luminoso.

*

Ia cantar. Sahiram-lhe da garganta as primeiras palavras de um canto de lagrimas. Que lamentações ergueria então aquelia alma? Àpproximava-se a hora de alva e ella ia desapparecer em breve.
O rapaz ergueu-se. As folhas e o matto rangeram-lhe debaixo dos pés; estalaram as hastes das hervas debaixo das mãos, em que elle se apoiava para se levantar.
A corça estacou de orelhas hirtas e pernas nervosas. A moura deteve-se. E tão depressa elle sahiu detrás da arvore, a corça fugiu com um grito e embrenhou-se no matto. O grito assustou-o e ficou a echoar-lhe no fundo dos ouvidos, com a apprehensão a apertar-lhe as fontes, comprimindo-lhe o coração com susto.
Olhou; a moura desapparecêra. Ouvia ainda o restolhar da corça no matto. A agua do tanque estava agitada, e uma nevoa, dir-se-hia de incenso, evolava-se do tanque, subindo a direito e perdendo-se nas copas dos ulmeiros.
Só as rosas do rosal estavam brancas e perfumadas como antes. E lá em baixo o Angueira batia contra os rochedos, zangado de o não deixarem passar á vontade.

FonteCHAVES, Luis, Lendas de Portugal: Contos de Mouras Encantadas, Lisboa, Livraria Universal, 1924 , p.147-160

Local Algoso, VIMIOSO, BRAGANÇA

Narrativa

Quando Séc. XX, 20s

CrençaInseguro/ N empenhado

Lenda da Fonte Santa

Lenda da Fonte Santa


Algoso tem muitas capelas. Entre elas destaca-se a capela de S. João Baptista, cuja festa se celebra no dia vinte e quatro de Junho, santo muito venerado nesta povoação. Esta capela é muito bonita e está situada numa das saídas da povoação.
Debaixo do altar sai uma nascente que dá origem à Fonte Santa, pegada à capela. A dita fonte é toda em granito, com um pátio e bancos em volta para as pessoas se sentarem. A água desta fonte não é boa para beber, pois não tem bom sabor, mas é boa para curar males de pele.
Diz-se que noutros tempos passavam por aqui muitos peregrinos, pois este sítio era considerado caminho das rotas de Santiago de Compostela. Ora, como os peregrinos chegavam com os pés doridos, iam lavá-los à Fonte Santa. Eles aproveitavam este local não só para curar as chagas, mas também para descansar.
Esta fonte e esta capela são muito antigas e as suas origens perdem-se no tempo. Uma velha lenda preza também que à “Cabeça Santa”, assim é chamada pela gente da aldeia a imagem de S. João Baptista, lhe crescia a barba sendo necessário aparar-lha. Tudo isso se transmitiu de geração em geração até aos dias de hoje, a prová-lo está a devoção dos habitantes de Algoso ao referido santo.

FonteROSÁRIO, Serafim do, Terras de Vimioso: Retalhos de Literatura Oral, [Vimioso], sem editora, s/d , p.109

Local Algoso, VIMIOSO, BRAGANÇA

ColectorAlfredo Cordeiro (M)

Narrativa

Quando Séc. XX, 90s

CrençaInseguro/ N empenhado

Lenda do Crocodilo

Lenda do Crocodilo


Era uma vez um lavrador que vivia na antiga vila de Algoso. Esse lavrador tinha um filho ainda bebé e umas terras junto ao castelo. Um dia foi lavrar as suas terras levando o filho consigo e deixando-o abrigado debaixo de uma fraga enquanto lavrava. Acabou de lavrar e foi buscar o filho, mas no lugar do filho estava um monstruoso crocodilo.
Muito aflito, o lavrador fez então uma promessa a Nossa Senhora do Castelo: se o filho saísse vivo da barriga do crocodilo, ele iria erguer ali uma capela em honra de Nossa Senhora. Pôs-se em cima do crocodilo e saltando em cima dele com toda a força que tinha e batendo-lhe com a aguilhada obrigou-o a vomitar o seu filho vivo. Finalmente matou o monstruoso animal.
Em agradecimento à Senhora, construiu então uma grandiosa capela. Ela ainda hoje está em pé, firme e bonita, e como prova do milagre, dentro da mesma lá se encontra a pele do crocodilo.

FonteROSÁRIO, Serafim do, Terras de Vimioso: Retalhos de Literatura Oral, [Vimioso], sem editora, s/d , p.108

Local Algoso, VIMIOSO, BRAGANÇA

ColectorNelson Brinço (M)
Narrativa

Quando Séc. XX, 90s

CrençaInseguro/ N empenhado

O Saca - Unhas

O Saca - Unhas


Era uma vez, há muito, muito tempo!... Na vila de Algoso, os meninos só queriam subir para a torre da igreja, pois, esta estava sempre com a porta aberta. Então, as pessoas da povoação inventaram uma história para eles não subirem à torre. Esta história dizia que a meio da torre havia uma casa pequenina e aí, num buraco vivia um bicho muito feio, chamado Saca-Unhas, pois, sacava as unhas às pessoas.
Algumas crianças acreditavam mesmo nisso e deixavam de subir à torre, porém, outros não acreditavam e continuavam a subir como dantes.
Esta história foi passando de geração em geração e ainda hoje se conta em Algoso, embora as crianças já não acreditem nessas fantasias.

FonteROSÁRIO, Serafim do, Terras de Vimioso: Retalhos de Literatura Oral, [Vimioso], sem editora, s/d , p.57

Local Algoso, VIMIOSO, BRAGANÇA

ColectorSergio Granado Fernandes (M)

Narrativa

Quando Séc. XXI,

CrençaInseguro/ N empenhado

Comércio em Algoso

En Algoso aparecen «barquetas»1 castellanas que utilizan los de Castilla para llevar, entre otras cosas, trigo portugués a sus molinos.2



1. «As parcas referencias sobre estes barquetes não permitem identificar se é um medio de transporte que se lança na água ou elevado sobre a água». 1. Vaz de FREITAS, «Linhas de comércio entre Portugal e Castelo nos finais da Idade Média», p. 89

2. Demarcações de fronteira. Lugares de Trás-os-Montes e de Erntre-Douro-e-Minho, p.41


Val Valdivieso, María Isabel del; Villanueva Zubizarreta, Olatz (2008), “Musulmanes y cristianos frente al agua en las ciudades medievales”. Acedido a 17 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?id=9-8i_Ao_eW8C&pg=PA263&dq=Castelo+de+Algoso&hl=pt-pt&ei=eA5dTZW1GYnIhAfwgYGrCA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=8&ved=0CEUQ6AEwBzgU#v=onepage&q=Castelo%20de%20Algoso&f=false

Cristão novos em passagem pelo castelo de Algoso

O castelo de Algoso recebeu alguns dos cristãos-novos, destinados à lnquisição de Évora. A sua estada aqui e a viagem para esta cidade, sob chuva, foi terrível, acompanhada pela fome.


Costa, Sá da (1969), Revista de história económica e social, Edições 19-21. Acedido a 17 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?id=_1TmAAAAIAAJ&q=Castelo+de+Algoso&dq=Castelo+de+Algoso&hl=pt-pt&ei=_gtdTYCrFYexhAeBqbGqCA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=6&ved=0CDgQ6AEwBTgK

Quadra popular

Adeus, castelo de Algoso, Sobre a ribeira de Angueira;
O castelo não é nada Sem a sua companheira.


Extracto retirado da Revista Portuguesa Mensal: Ocidente, Volume 70,Edições 333-338. Acedido a 17 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?id=BARYAAAAIAAJ&q=Castelo+de+Algoso&dq=Castelo+de+Algoso&hl=pt-pt&ei=_gtdTYCrFYexhAeBqbGqCA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=5&ved=0CDUQ6AEwBDgK






Quadra sobre Algoso e seu castelo


Adeus, adeus ó Algoso, Tens castelo e pelourico;
Eu já não falo contigo, Com a vontade me fico.



Extracto retirado da Revista Portuguesa Mensal: Ocidente, Volume 70,Edições 333-338. Acedido a 17 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?ei=bPpcTYGkEdeqhAfmvuipCA&ct=result&hl=pt-pt&id=wd4ZAAAAMAAJ&dq=Castelo+de+Algoso&q=Castelo+de+Algoso#search_anchor




Desertificação de Algoso a partir de meádos do Séc. XIV



Apesar de apenas registado em fundo através da vista Oeste do castelo de Mogadouro, o castelo de Algoso consta do Livro das Fortalezas, pelo que não oferece qualquer dúvida a sua existencia física no espaço fronteiriço transmontano mas, como afirma Gomes (2003, p. 145), “A localidade medieval que correspondia a esta comenda manifestou uma tendência a desertificação a partir do século XIV”. Este castelo, sede de uma comenda dos Hospitalários desde o séc. XIII, remonta ao séc. XII e caracteriza-se por uma torre de menagem heptagonal que assenta de forma directa sobre um afloramento rochoso, apresentando várias fenestrações, uma delas munida de um balcão com matacães cobrindo a entrada do recinto, o que indicia uma utilização simultaneamente militar e residencial, como se pode comprovar pela leitura das Actas de Numeramento dos moradores de Trás-os-Montes de 1530, a que Gomes (2003, p. 148) igualmente faz alusão através de Anselmo Braamcamp Freire (1909, p. 264):


“A villa d'Algoso tem hu castello, onde nam vyve senam o alcaide (...)”


Correia, Luís Miguel (2010), "Castelos em Portugal. Retrato do seu perfil arquitectónico (1509-1949) ". Acedido a 17 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?id=NvrKKADg2M4C&pg=PA95&dq=Castelo+de+Algoso&hl=pt-pt&ei=bPpcTYGkEdeqhAfmvuipCA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=4&ved=0CC8Q6AEwAw#v=onepage&q=Algoso&f=false



quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal (Algoso)


Um dos mais incansaveis Nembroths, dos mais rudes caçadores de homens, que a Inquisição teve nos primeiros tempos de sua existencia, foi um certo Francisco Gil. Este miseravel tinha começado a carreira dos seus crimes pelo assassinio do genro de um mercador honrado de Lisboa, assassinio perpetrado publicamente no meio da Rua-nova2.

Revestido do cargo de sollicitador do tribunal da fé, Francisco Gil foi enviado pelas provincias a descubrir os sectarios occultos do judaismo. A empreza podia ser odiosa; mas não era nem arriscada nem difficil. O activo agente achou logo um melhodo efficaz e simples de obter avultada colheita. Chegando a qualquer logar onde residissem christaos-novos, mandava annunciar que em tal igreja se havia de fazer uma festa e procissão solemne. Corria o povo ao templo no dia assignalado. Então elle mandava fechar as portas e em nome da Inquisição intimava aos fiéis, debaixo das mais terriveis excommunhões, que, se no meio delles estavam alguns judeus occultos, os bons christãos lh'os indicassem1. Então os desgraçados reprobos do povo eram mandados pôr á parte, e d'alli conduzidos para a cadeia á ordem dos Inquisidores.

No seu gyro o implacavel commissario chegou a Miranda do Douro, e esse districto pa

l «quod quaecumque persona ibi cognoverit christianum novutn, ostendat illum:" (Ibid. fol. 312.) E evidentemente uma exaggeração de phrase. Gil não podia exigir que lhe indicassem os christaos-novos para os prender, mas sim os christãos-novos suspeitos de judaismo. É provavel, todavia, que em muitas partes o fanatismo tornasse synonimas as duas expressões.


Foram presos naquella villa onze individuos de ambos os sexos. Cada um delles devia , pagar-lhe quatorze mil reaes, somma que o sollicitador da Inquisição calculava ser necessaria para se transportarem ao logar em que, segundo as ordens do infante inquisidor-geral, deviam ser retidos.


Intimados judicialmente para apromptarem o dinheiro, resistiram todos, menos um pobre velho que jazia gravemente enfermo. Mandaram-se então inventariar e pôr em almoeda os bens dos réus, e estes foram removidos do castello de Miranda para o de Algoso, situado n'um ermo a meia legua da povoação deste nome. Gaspar Rodrigues, o velho enfermo, fôra ahi arrematante das rendas reaes.


O povo tinha-lhe má vontade, e os christãosnovos diziam que esta mudança era calculada para accender mais contra elle e contra os seus companheiros de infortunio a sanha popular. No castello de Miranda, construcção solida cingida por cinco torres alterosas, os simples ferrolhos dos alçapões do carcere respondiam pela segurança dos presos: no de Algoso, ruina de antiga fortificação, e longe do povoado, cumpria collocar guardas que obstassem a qualquer tentativa interna ou externa de evasão.


As tropas concelheiras, unicas que então havia, foram chamadas para aquelle serviço, e os factos vieram confirmar as previsões da gente da nação. As injurias das sentinellas ferviam sobre os encarcerados, e os camponezes mostravam para com Gaspar Rodrigues a mesma dureza de coração, que provavelmente elle lhes mostrára como exactor de tributos. A sua vingança estendia-se, porém, aos innocentes. Só a peso de ouro obtinham os presos os objectos mais necessarios á vida, o lume, a agua, os alimentos. Certo dia os guardas accenderam em frente da prisão uma grande fogueira e lançaram dentro um cão que ficou reduzido a cinzas. Era, diziam elles, o que haviam de fazer aos judeus que guardavam, antes que d'alli saissem. Entre estes havia uma Isabel Fernandes, mulher abastada, a quem Francisco Gil e o seu meirinho Pedro Borges tinham extorquido cem mil réis a pretexto de despezas de transito. Sem cama, sem uma camisa para mudar, a desgraçada chorava noite e dia. O esbirro offereceu-lhe então, não só confortos, mas até a liberdade se quizesse perfilhá-lo. Recusou. Redobraram os maus-tractos e carregaram-na de cadeias.

Vencida pela miseria e pela amargura a infeliz endoudeceu. Aos presos, que não lhe davam qualquer objecto que lhes pedia, trocava o malvado os grilhões por outros mais pesados, ou fazia-os descer a um logar profundo e humido, onde os deixava mettidos na agua. Gaspar Rodrigues, ferido já pelos ferros, leso de uma perna e a bem dizer semimorto, passou por ambos os martyrios. Francisco Gil accrescentava a estas barbaridades do seu meirinho uma singular extorsão: quando se lançavam ou augmentavam os grilhões aos presos, fazia-lhes pagar o custo delles. As pessoas que se dirigiam ao castello de Algoso para falar ás victimas, se acaso se demoravam mais tempo do que o permittido, impunha-lhes a multa de vinte mil reaes, e mandava-as expulsar d'alli, quando não as encarcerava1. Acaso as suas instrucções eram estas, e talvez a multa, fixada de antemão pelos inquisidores, não revertesse em seu beneficio. Fosse o que fosse, o que succedia era que ás vezes, a troco de alguns cruzados de peita, os colhidos na rede remiam a prisão e a multa. O espirito, porém, de violencia e de rapina dos dous agentes da Inquisição era tal, que elles proprios se tornavam ás vezes instrumentos indirectos da vingança das suas victimas.

1 O documento que seguimos diz que Francisco Gil multava quem vinha a Algoso, e que lhe impunha a pena de desterro: é evidente que estas expressões sío exaggeradas.

A rustica milicia da comarca de Miranda não desfructava gratuitamente o prazer de affrontar os presos de Algoso. Os lavradores tinham não só de velar o Castello, mas também de fazer roidas e vélas, ora num ora n'outro logar. Os indiciados de judaismo não se reduziam aos onze martyres transferidos para Algoso. As listas de réus eram extensas; as capturas multiplicavam-se; e os habitantes de qualquer aldeia que não iam dormir juncto do meirinho e dos outros esbirros, quando ahi chegavam com algum preso, eram severamente multados.


Herculano, Alexandre (1859), " Da origem e estabelecimento da inquisição em Portugal: Tentativa historica, Volume 3 (Google eBook)". Acedido a 2 de Fevereiro de 2011, http://books.google.pt/books?id=umwNAAAAYAAJ&pg=PA125&dq=Algoso&hl=pt-pt&output=text#c_top

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Romanceiro da Província de Trás-os-Montes (distrito de Bragança)

Cantado por Clementina da Assunção Afonso, de 47 anos de idade. Algoso (c. de Vimioso),n 31 de Julho de 1980


Juntaram-se as três comadres numa rua todas três;

uma dava o trigo, o vinho, e um cabrito dum mês.

Uma olhava pera a lua: - Oh que queijinho francês!

Estando elas nesta dança, chega o marido da Inês.

Palo numa, palo noutra, palo em todas as três.


Nota: Canta-se sarandilha entre os hemistíquios e sarandilh'andando, sarandilho és entre os versos.


Fontes, Manuel da Costa; Fontes, Maria-João Câmara (1987), " Romanceiro da Província de Trás-os-Montes (distrito de Bragança), Volume 1". Acedido a 30 de Janeiro de 2011, http://books.google.com/books?id=ylMixz_LcREC&pg=PA695&dq=Algoso&hl=pt-br&ei=MphFTevCKMbzsgbn6Yy7Dg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=5&ved=0CDkQ6AEwBDgK#v=onepage&q=Algoso&f=false

domingo, 30 de janeiro de 2011

Romanceiro da Província de Trás-os-Montes

Recitada por Clementina da Ascensão Afonso, de 47 anos de idade, Algoso (c. de Vimioso), 31 de Julho de 1980


Alta vai a lua, i-alta mais que o sol ao meio-dia;

mais alta ia a Senhora quando p'ra Belém ia.

S. José ia atrás dela cantando a avé-maria.

S. José foi buscar lume porque a noite estava fria;

quando S. José voltou já a Virgem estava parida.

Os anjos perguntaram como ficou Maria.

- Maria ficou bem, na sua céldora metida.



Fontes, Manuel da Costa; Fontes, Maria-João Câmara (1987), " Romanceiro da Província de Trás-os-Montes (distrito de Bragança), Volume 1". Acedido a 30 de Janeiro de 2011, http://books.google.com/books?id=ylMixz_LcREC&pg=PA695&dq=Algoso&hl=pt-br&ei=MphFTevCKMbzsgbn6Yy7Dg&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=5&ved=0CDkQ6AEwBDgK#v=onepage&q=Algoso&f=false



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Rota dos castelos e igrejas

Nesta época em que o tempo anda farrusco, que tal um passeio num destes fins-de-semana por uma rota de castelos e igrejas do interior norte do país? Bora lá!

Miguel Rodrigues, da Direcção Regional da Cultura do Norte, é o nosso guia neste roteiro de algumas centenas de quilómetros, mas que valem bem a pena.

A sugestão é começar pelos castelos de origem medieval ao longo da raia nordestina, até pela importância que tiveram na "fixação e protecção das populações junto à fronteira".

Em Freixo de Espada à Cinta existe um centro histórico "muito bem conservado, que tem uma igreja manuelina notável e uma torre que é o que resta da antiga fortaleza".

Mogadouro é o próximo passo, pois conta com a ruína de um castelo que pertenceu à Ordem do Templo. Muito próximo encontra-se o Castelo de Penas Róias que permite "uma vista fantástica pelo planalto mirandês".

Continuando a subir em direcção a Bragança é o Castelo de Algoso, em Vimioso, que impõe a paragem. "De todos é talvez o mais interessante. Está situado num penedo e muito bem conservado". Na povoação existe um centro interpretativo.

Segue-se Miranda do Douro para ver a Sé e as antigas muralhas. Já ali existiu um castelo mas foi "destruído no século XVIII numa explosão resultante de uma guerra entre Portugal e Espanha".

Chegados a Bragança é imperativa uma visita à cidadela fortificada e à Domus Municipalis, "edifício de carácter românico e com utilização civil mais antigo na Península Ibérica".

Miguel Rodrigues não se esquece de sugerir também a visita a castelos e vilas amuralhadas no Douro, como é o caso da de Ansiães (Carrazeda de Ansiães) e da de Numão (Vila Nova de Foz Côa).

"São anteriores à nacionalidade, têm grandes muralhas e foram abandonadas nos séculos XVII e XVIII. No entanto ainda têm as fortificações bem conservadas e as igrejas que existiam no interior".

No planalto de Numão também chama por si o Castelo Velho, que embora tenha esta designação é um sítio arqueológico com mais cinco mil anos e que é um testemunho da fixação das primeiras pessoas naquela região, depois de abandonarem uma vida nómada.

O Castelo de Penedono e as igrejas matrizes de Torre de Moncorvo e Foz Côa são igualmente imperdíveis.

Turismo histórico a crescer

Miguel Rodrigues acredita que o número de visitas a este tipo de património tem tendência para aumentar. Mas será uma espécie de "turismo familiar", feito de carro, por famílias inteiras ou casais entre os diversos pontos.

Até porque estão em construção novas estradas que vão facilitar o acesso. Considera ainda que toda a região de Trás-os-Montes e Alto Douro é também "muito interessante" em termos paisagísticos e gastronómicos, havendo uma série de vilas que "merecem ser visitadas" por outros aspectos além do património histórico.

Pinto, Eduardo (2011), "Rota dos castelos e igrejas", 07 de Janeiro de 2004. Acedido a 27 de Janeiro de 2011, http://www.jn.pt/VivaMais/Interior.aspx?content_id=1750381&page=-1